Imagine alguém em 2036 tentando explicar como era conversar sobre o Brasil em 2026.
Essa pessoa provavelmente não começaria pelos partidos. Falaria de três forças que, ao mesmo tempo, passaram a influenciar o que cada um de nós aceita como verdade: a fé, os algoritmos e a geopolítica.
Aqui, seguimos cada uma delas com calma, olhamos o que os dados mostram e imaginamos como essa conversa pode ficar melhor.
Role para começar
Antes de votar, a gente conversa. E hoje essa conversa é atravessada por três forças: a fé, os algoritmos e a geopolítica. O artigo acompanha cada uma delas, sem pressa.
Na fé, vemos que os evangélicos cresceram no Brasil, mas pensam de formas bem diferentes entre si. Também conhecemos a série The Family, que mostrou uma rede discreta de fé e poder nos Estados Unidos. Se existe algo parecido por aqui, a resposta honesta é: não sabemos.
Nos algoritmos, entendemos como as redes escolhem o que ganha destaque e o que mudou com a decisão do STF sobre as plataformas. No mundo, vemos como a disputa entre grandes potências chega até o preço das coisas.
No fim, um filme, três futuros possíveis até 2030 e cinco atitudes simples para conversar melhor a partir de hoje.
Antes do voto, existe a conversa
A democracia não acontece só no dia da eleição. Ela acontece antes, nas conversas do trabalho, da comunidade, dos grupos de mensagem e dos comentários. É ali que formamos opinião, mudamos de ideia ou endurecemos posições.
Essa conversa mudou de lugar e de ritmo. E não por acaso. Três forças disputam a mesma coisa: a sua forma de decidir o que é verdade.
A primeira delas chega pela porta da comunidade.
A fé ganhou espaço, mas não é um bloco
parcela de evangélicos no Brasil entre 2010 e 2022, segundo o Censo do IBGE
Comunidades religiosas, com vida local forte e redes de apoio, ocupam um espaço social cada vez maior.
Mas o número não autoriza a conclusão mais comum das redes, a de que “os evangélicos pensam igual”. Não pensam. Há denominações, regiões, rendas e visões políticas muito diferentes.
Pertencer não é o mesmo que concordar
Onde o Estado chega tarde, igrejas, terreiros e paróquias oferecem acolhimento, ajuda material e escuta. Reduzir a fé a máquina eleitoral é tão impreciso quanto fingir que ela não tem peso político.
Pesquisas do Pew Research Center sobre a América Latina mostram essa ambivalência: há quem queira mais religião na vida pública, mas não existe um bloco único. A fronteira que importa é outra: entre quem aceita a pluralidade e quem quer transformar a própria moral em regra para todos.
The Family: a série sobre fé e poder em Washington
Em 2019, a Netflix lançou The Family, série documental em cinco episódios dirigida por Jesse Moss. Apesar do nome, ela não fala de família no sentido de casa. Fala de uma rede.
A série acompanha a Fellowship, também chamada de “a Família”: um grupo cristão conservador e discreto que, há décadas, aproxima parlamentares, empresários e autoridades estrangeiras nos Estados Unidos. O ponto de partida é a investigação do jornalista Jeff Sharlet, que escreveu livros sobre o grupo e conviveu por dentro com seus integrantes.
Orações, encontros e influência
Liderado por muitos anos por Doug Coe, o grupo organiza encontros de oração e está por trás do National Prayer Breakfast, café da manhã realizado em Washington desde 1953 que reúne presidentes, congressistas e convidados de outros países. A série mistura entrevistas, arquivos e cenas dramatizadas com atores.
O que ela ajuda a enxergar é um mecanismo: relações discretas entre fé, dinheiro e política podem pesar tanto quanto discursos públicos.
E no Brasil?
A resposta honesta é: não sabemos. Não encontramos, em fontes públicas, provas de uma rede equivalente e coordenada por aqui. Isso não quer dizer que ela não exista, só que ninguém documentou até agora.
Vale separar duas coisas. Teoria da conspiração é a explicação que não pode ser testada e serve para tudo. Conspiração é algo que acontece de verdade e pode ser comprovado com documentos, testemunhos e investigação. The Family é um exemplo: o que parecia boato virou reportagem, livro e série.
Por isso a atitude mais útil não é acreditar em tudo nem descartar tudo. É exigir transparência: quem financia, quem se reúne com quem e com que interesse.
Essas ideias viajam rápido. E quem decide a velocidade é a segunda força.
O algoritmo não vota. Mas escolhe o que grita mais alto
Dizer que “o algoritmo decidiu a eleição” é exagero. Pessoas continuam escolhendo, compartilhando e votando.
Mas as plataformas não são canos neutros. Elas decidem o que aparece primeiro, o que se repete e o que some. Na prática, ajudam a definir quais emoções ganham escala: urgência, raiva, medo, pertencimento.
A tecnologia não criou esses sentimentos. Ela os tornou mais rápidos, visíveis e lucrativos.
A notícia chega com a emoção já embalada
O Digital News Report, do Reuters Institute, mostra que redes sociais e vídeos ganharam peso no consumo de notícias no Brasil, enquanto a confiança no jornalismo sofre pressão. O fato chega junto com cortes e reações que já sugerem quem admirar, temer ou odiar.
E há quem pague por esse alcance. O NetLab, da UFRJ, identificou nas eleições de 2026 anúncios político-eleitorais impulsionados nas plataformas da Meta a partir do exterior e por atores sem autorização. Isso não prova que votos mudaram, mas mostra que a conversa democrática tem infraestrutura, e ela precisa de regras.
O que o STF mudou nas redes
Em 26 de junho de 2025, o STF considerou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet. Até então, a regra geral era: a plataforma só respondia por um conteúdo se descumprisse uma ordem judicial.
Agora há parâmetros diferentes conforme o tipo de conteúdo, e a ordem judicial continua valendo em casos como crimes contra a honra. A decisão dividiu opiniões, e com razão: proteger vítimas sem estimular remoções excessivas é um equilíbrio difícil.
A pergunta certa não é “moderar ou não”
Quem já foi alvo de montagem ou perseguição coordenada sabe que a lentidão pode ser devastadora. Quem já viu uma sátira ou uma reportagem ser contestada teme regras vagas.
A pergunta madura é outra: quem define as regras, com que critérios, com que transparência e com que direito de recurso? Liberdade sem regras vira impunidade. Segurança sem transparência vira opacidade.
Enquanto discutimos regras aqui dentro, a terceira força chega de fora.
A geopolítica chega pelo feed e pelo preço das coisas
BRICS, cúpulas e mapas com setas parecem distantes. Mas a disputa entre Estados Unidos, China, Europa, Rússia, Índia e o Sul Global aparece no preço dos alimentos e da energia, nas regras sobre dados e na tecnologia que usamos.
O CEBRI defende que o BRICS amplia a autonomia brasileira ao diversificar parcerias. O Council on Foreign Relations descreve o interesse do Brasil por uma ordem mais multipolar. A ideia não é escolher um lado, e sim não depender demais de nenhum.
Quando a diplomacia vira torcida
O BRICS não é um bloco homogêneo, e autonomia não é isolamento. O Brasil pode, e precisa, se relacionar com todos.
O risco começa em casa, quando geopolítica vira identidade. A pessoa deixa de avaliar uma decisão concreta e passa a defender tudo o que associa ao “seu” lado lá fora. É assim que disputas estrangeiras entram na nossa conversa como se fossem nossas.
E o cinema resolveu imaginar até onde isso pode ir.
O filme que mostra o que a família não consegue dizer
Em O Aniversário (2025), de Jan Komasa, com Diane Lane e Kyle Chandler, uma família aparentemente estável se desfaz enquanto um movimento político chamado The Change ganha força no país.
É ficção americana, não diagnóstico do Brasil. Mas o incômodo é familiar: cada frase vira teste de fidelidade, cada silêncio parece cumplicidade, cada nuance soa como fraqueza.
Sociedades não se partem de uma vez
Primeiro, a piada que desumaniza. Depois, o boato que ninguém corrige. Então, a desistência de conversar.
Por fim, vem a ideia de que o outro não merece ser ouvido. O caminho de volta depende de confiança, tempo e de não transformar toda relação em extensão do feed.
Duas regras ajudam: separar pessoa e conteúdo (“essa informação parece falsa” não é “você é burro”) e lembrar que laço afetivo não exige concordância.
Se a ruptura é gradual, o futuro também é. E ele tem mais de um caminho.
Três futuros possíveis até 2030
Cenários não são profecias nem apostas eleitorais. Servem para enxergar que o presente pode seguir caminhos diferentes e quais sinais vale observar agora.
O Brasil pode misturar os três.
Convivência competitiva
A polarização continua, mas encontra limites. Partidos disputam duro, lideranças religiosas participam do debate, plataformas são pressionadas por transparência e o país busca autonomia sem transformar diplomacia em guerra cultural. O risco é confundir calma com solução.
Sinal para observar: regras do jogo voltando a ser respeitadas por todos os lados.
Fragmentação administrada
Há eleições e instituições funcionando, mas cada grupo vive em sua própria bolha de informação, fé e consumo. A regulação avança aos pedaços. Não há ruptura dramática, mas famílias, escolas e empresas gastam energia demais administrando desconfiança.
Sinal para observar: cada lado com seus próprios “fatos”.
Escalada de deslegitimação
Imprensa, Justiça, universidades, igrejas e sistema eleitoral passam a ser tratados como inimigos por algum campo. Influenciadores valem mais do que processos verificáveis, e a IA barateia falsificações. Mas nada disso acontece sem gente compartilhando sem checar.
Sinal para observar: a suspeita virando padrão.
Como não virar refém da polarização
Desligar da política não é saída: quem abandona a conversa deixa o espaço para quem lucra com medo. A alternativa é participar de um jeito mais exigente.
- Antes de compartilhar, procure fonte, data e contexto. Se o conteúdo dá raiva imediata, verifique mais.
- Troque “de que lado você está?” por “o que te fez acreditar nisso?”.
- Fé não obriga ninguém a concordar com candidato, partido ou influenciador.
- Pergunte quem pagou o anúncio e por que a plataforma te mostrou aquilo.
- Leia fontes que informam, não só as que confirmam o que você já pensa.
Convidadas, não juízas
Fé, algoritmos e geopolítica não vão sair da conversa pública. Nem precisam. A pergunta é se entram nela como convidadas ou como juízas.
O futuro da democracia também se decide nos pequenos hábitos de atenção, conversa e verificação.
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Leia tambémSingularidade Adiada? Repensando o Impacto da Superinteligência Artificial na Sociedade e no Trabalho do Amanhã.Perguntas frequentes
O crescimento evangélico significa que o Brasil terá uma política necessariamente mais conservadora?
Não. O crescimento demográfico aumenta a relevância social e eleitoral desse segmento, mas evangélicos não formam um bloco político único. Denominações, regiões, renda, raça, geração e prioridades locais produzem posições diferentes.
A decisão do STF sobre o artigo 19 acabou com a liberdade de expressão nas redes?
Não. Em 26 de junho de 2025, o STF definiu parâmetros de responsabilização das plataformas e considerou parcialmente inconstitucional a regra geral do artigo 19. O tema segue cercado de debates legítimos sobre proteção contra danos, critérios de remoção e garantias contra censura excessiva.
Algoritmos realmente causam polarização?
Não há base para dizer que algoritmos, sozinhos, causam polarização. Eles podem amplificar conteúdos emocionalmente mobilizadores e moldar a visibilidade de certas mensagens, mas pessoas, lideranças, meios de comunicação, instituições e desigualdades sociais também influenciam o fenômeno.
O BRICS obriga o Brasil a se afastar dos Estados Unidos ou da Europa?
Não. O BRICS é uma plataforma de cooperação entre países com interesses diversos, e a diplomacia brasileira historicamente busca diversificar parcerias. Participar do grupo não elimina relações econômicas, tecnológicas e políticas com Estados Unidos, Europa e outros parceiros.
Fontes e referências
- IBGE, Censo Demográfico 2022: Religiões, 2025 — link
- Supremo Tribunal Federal, STF define parâmetros para responsabilização de plataformas por conteúdos de terceiros, 2025 — link
- Reuters Institute for the Study of Journalism, Digital News Report 2025: Brazil, 2025 — link
- NetLab UFRJ, Observatório das Big Tech: monitoramento das eleições gerais de 2026 — link
- Pew Research Center, Many Latin Americans see a role for religion in government, national identity, 2026 — link
- Pew Research Center, Religion in Latin America, 2014 — link
- CEBRI, Por que o BRICS é estratégico para o Brasil?, 2025 — link
- Council on Foreign Relations, The BRICS Summit 2023: Seeking an Alternate World Order?, 2023 — link
- Lionsgate, Anniversary: site oficial do filme, 2025 — link
- Jeff Sharlet, The Family: The Secret Fundamentalism at the Heart of American Power, 2008 — link
- Pepe Café, análise geopolítica, vídeo tratado como opinião e análise do canal — link
- Netflix, trailer oficial de The Family, 2019 — link
- Meteoro Brasil, live sobre Meta, IA e eleições, vídeo tratado como opinião e análise do canal — link
- Trailer oficial de O Aniversário, 2025 — link

